Era formatura da prima. Essa
informação, a princípio, não é importante para a história. Mas foi esse fato,
simples, que reuniu a família naquela sexta-feira. A entrega dos diplomas seria
no dia seguinte, de manhã, e o grande baile, nos embalos do sábado à noite.
Era uma família tradicional.
Libanesa em suas origens mais próximas com uma parte da educação obedecendo a
essa cultura que é fechada a certas “modernidades”. Moravam no Brasil, apesar
de tudo, e o jantar foi uma mistura de culinária japonesa com árabe. Esse mundo
globalizado permitiu que dividissem a mesa, a pimenta baiana, o peixe cru e o
kibe, também cru. Em meio aos sashimis e sushis, as esfihas e zatars se
encontravam chamativas. Tinha também a pizza da vovó (essa avó, a matriarca e
responsável pela passagem de todos os ensinamentos libaneses, havia deixado a
família há pouco tempo. Doente há muito, mas a pizza trazia um cheiro de
tristeza, quando lembravam-se que ela não estava mais lá). E assim, a família se
reuniu na mesa com hashi´s e talheres. O clima era de festa e as pessoas
conversavam sobre assuntos corriqueiros.
O único detalhe que vale
ressaltar, nessa etapa da história, é o fato do namorado da prima estar fazendo
sua pós-graduação em Piracicaba. A prima ia sempre pra lá o que fez, por muitos
meses, a menina lembrar-se de uma vida que não aconteceu. Ou, aconteceu tão
intensamente que teve que parar para não explodir. Mas isso fazia muito tempo e
o fato, hoje, já não a abalava mais. Essa menina não tem nome, porque pode ser
a Maria ou a Joana. Lindsey ou Laila. Podia ser também Carolina, do filme. O
importante é que o namorado da prima estava na mesa, eles conversavam sobre aquela
cidade e nada havia despertado alguma memória depois dos meses. Já dizia o
ditado: “O tempo cura tudo.” E parecia curada mesmo.
Naquela mesa, estavam
representados todos os obstáculos dessa história que ficou esquecida. Não tinha
sido lembrada no dia pela menina, mas aqui está relatado para que o leitor
possa entender o que, subconscientemente, aquela mesa representava. Começando
pela comida que dividia sua base alimentar em peixe cru ou carne crua. Ambos de
carne, o que seria impensável para a dieta de um vegetariano. A tradicional
família não sabia o que era “dread”
ou se quer imaginava que alguém “normal” poderia ter aquele canudo no cabelo.
Quando um ou outro passava por eles, na rua, era sempre uma cara de horror. A
menina vinha tentando mudar esse conceito no meio àquelas cabeças-duras, mas
era uma tarefa árdua. Árdua ou não, todos lá já sabiam o que era dread e até brincavam quando via alguém
na rua com uma coisa no cabelo (seja ela qual fosse, podia ser até um chapéu):
“Olha lá os amigos dela”. E era risada garantida para toda a família, inclusive
para a própria menina que ria pela dificuldade. Chegou a ouvir da namorada do
primo, certo dia: “Onde você conhece umas pessoas assim?” E não respondeu,
porque talvez ela se espantasse com a resposta.
Era uma mesa burguesa,
inegavelmente. A ideia de viajar, com uma mochila nas costas sem hotel
reservado ou passagem na mão era algo impensável para quase todos naquela mesa,
com exceção dela. Já tinha feito a viagem para a América Latina com a mochila e
a coragem e mais dois amigos. O que fazia dela um “ponto fora da curva” naquela
família tão tradicional. Apesar de ser o exemplo de quase todos, estudada,
pós-graduada, pesquisadora. Poderia ser empresária, gerente ou engenheira. Era
exemplo porque tinha a família como princípio e uma carreira de sucesso pela
frente. Era lembrada na educação dos mais novos em todos os momentos, menos
nesses devaneios da juventude. Era considerada revolucionária por participar do
movimento estudantil da sua universidade, já tinha ido a uma manifestação ou
outra e defendia os excluídos. O que diziam era somente: “ela é jovem, depois
desiste”. Esses comentários sempre traziam um pensamento calado: “eles não
sabem o que dizem. Eles não sabem o que é revolução”. Calado, porque é assim
que tem que ser. Não entendiam que havia uma vontade de mudar o mundo não de
juventude, porque quando jovem, os planos eram outros. Dentro dela havia uma
vontade de conhecer e explorar o mundo todo na tentativa de ajudá-lo, de alguma
forma. E ela estudava não era pra ser bem sucedida, simplesmente. Ela podia ser
engenheira ou médica, mas se pós graduava em ciência na tentativa de mudar
alguma coisa nesse mundo, com pessoas carentes de... pessoas.
Claro que ela gostava de um
conforto e fazia planos de viagens mirabolantes. A próxima seria a Disney com
seu irmão, o que não contribuiria de forma alguma com a sociedade. E essas
vontades e planos confrontavam todos os dias com seus ideais. Ela se descobria
todo dia e buscava um caminho do meio entre seus planos e seus planos.
O jantar seguia (pois é,
falávamos do jantar apesar de desviar para explicar um pouco da complicada
garota). Todos jantaram e beberam e riam. Depois do jantar de um bom libanês,
não podia faltar uma coisa: o café. O café significava o selo de uma boa
amizade ou de uma boa comida. Criança e menina? Não tenha dúvidas que vai ser o
seu primeiro aprendizado na cozinha. Fazer café brasileiro ou libanês. O
primeiro, coado. O segundo não. Sempre havia a pergunta, quando não era o
anfitrião que o fazia já que ele, homem, podia escolher que tipo de café fazer.
Na ocasião, foi ele quem fez. E
ele era inovador na cozinha. Aprendeu a cozinhar, apesar de ser homem, por não
gostar de cebola. Era o único da família toda, então aprendeu a fazer seus
próprios pratos. E inovava. Essa família tinha uma peculiaridade, já que as
mulheres sabiam cuidar melhor das lojinhas do que da cozinha e o único homem é
quem sabia cozinhar (além de cuidar da lojinha, claro). Tudo isso porque quem
cozinhava até pouco tempo era a avó (da pizza) e ninguém precisou aprender. Só
ele, pelos motivos já citados.
E veio o café. O cheiro tomou a
sala de jantar com rapidez como o faz todas as vezes que o bule está a postos.
O cheiro do café é tão importante que muitas pessoas gostam unicamente do
cheiro e não do gosto. E o cheiro, dessa vez, veio diferente. Inovação do
cozinheiro. As pessoas comentavam sobre o novo-cheiro. Novo cheiro para todos
daquela mesa com exceção daquela menina, mais uma vez. O cheiro daquele café
seria capaz de tirar lágrimas de seus olhos. E assim quase fez. Distraídos
pelos comentários sobre a mudança sutil no cheiro do café, passou despercebida
em seus pensamentos. O cheiro não tinha nada de novo para aquela menina que,
por instantes, saiu daquela sala e foi para o ano anterior, naquela mesma
época.
Canela. Falaram juntos o tio e a
menina. E todos tomaram a xícara de café e voltaram para seus assuntos
corriqueiros. Menos ela. Tomou cada gole recheado de pensamentos e lembranças.
O namorado do primo voltou a ser de Piracicaba e aquele gole de café fazia isso
escancarado na sua cara. Mais um gole e os dread´s, na família, foram
observados um a um. E a ausência deles fazia o gole ter mais sabor. A proibição
daquilo e a vontade que um dia assolava aquela menina tão menina e tão adulta.
Mais um gole. Mais pensamentos. O gramado daquela vila, a sanfona, o macarrão
vegetariano. Deitados na cama, íntimos, a presença dele naquela família formava
um cenário curioso. Eles riam seminus, pensando na nudez do filho que não
existia. Naquela mesa, num ex-futuro. E o cheiro do café lembrava a rua com
carros e a possibilidade de se deitar nela. Ela sorriu, no presente. Ninguém
percebeu.
O suco de maracujá nem havia sido
citado no texto porque sequer havia sido notado. E, mais um gole de café, ou
melhor, daquele café, e o suco de maracujá tomou forma. Maracujá fruta. Maracujá
flor.
Flor. Não há como olhar para uma
e não se apaixonar. As flores estão ai para dar cor e perfume à vida. Dentre
tantas, há aquela que sempre agrada, em particular, uma pessoa ou outra, seja
pela forma que apareceu na vida dela ou por sua beleza incontestável. Para quem
já viu, há de concordar que a flor de maracujá é daquelas que possuem detalhes
incomparáveis. Detalhes. São neles que às vezes nos fixamos. “Mas são apenas
detalhes”. Apenas não. O que seria da vida se não fossem os detalhes? Aquele
telefonema inesperado, um bilhete deixado no meio do livro, o cheiro da canela
no café. Detalhes. São eles que fazem toda a diferença. Com a flor não é
diferente. E a de maracujá permite a observação de uma infinidade deles.
Detalhes.
Mais um gole do café. O último. E
as lágrimas corriam internas. Ela não sabia onde ele estava. Por dias a fio
esperou notícias. Esperou retorno. Mas hoje preferia mesmo não saber. E as
vezes achava que aquela história nem tinha existido. Foi um filme ou um livro que
se fundiu a sua imaginação e ela viveu uma paixão de novela. Paixão de atores,
ela pensava. E sorria. Eles o eram. Atores. Agiram. Sentiram. E cada um seguiu
seu rumo como tinha de ser.
Na festa do dia seguinte, ela
recebia um pedido de namoro. Ele, de gravata, terno e sapatos, fazia feliz
aquela menina, hoje, mais mulher. Cuidados, carinhos, companheirismo. Ela tinha
tudo. Mas tinha também, no seu interior, uma história. Que, como toda história,
teve um fim.
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