Eu cheguei em BH cansada. Foi um dia intenso de trabalho, trocando algumas opiniões e discussões por caras de paisagem e balanços de cabeça.
Apesar do treinamento ter sido ótimo, eu estava psicologicamente cansada. E estava também fisicamente cansada, já que meu vôo tinha saido de são paulo as 6h50 e eu tinha ido dormir as 2h e acordado as 4h!
Cheguei no hostel sem qualquer mensagem do meu aparente único contato nessa cidade estranha mas que, de cara, se mostrou acolhedora.
Eu precisava de um banho e uma cerveja. Mesmo pensando que não tinha recebido a msg esperada para uma companhia conhecida, era só isso mesmo que eu precisava.
Tomei banho e, me trocando, eu escutava aquele barulho tranquilizador de lata de cerveja abrindo... tsss... alguém bebia por ali. De repente outra lata se abria e logo depois outra. Três gringos bebiam no quintal do hostel e eu já peguei uma lata e entrei na roda de risadas dividindo meu dia de trabalho e falando como estava feliz em poder brindar com pessoas o meu dia e o meu fim de semana que se aproximava.
De repente, estávamos no bar, eu, os 3 gringos, um argentino e esperávamos um baiano que atrasou e chegaria logo mais. O argentino tinha amigos em BH que talvez chegasse e eu, achando que podia haver uma possibilidade, falei a mesma coisa. Que eu tinha um amigo que podia se juntar àquele grupo recém-formado.
O bar foi indicação da dona Angela para os hóspedes, que fazia o café da manhã do hostel e que eu tinha conhecido naquele bar já que eu havia chegado depois do café! E era um bar sobre florestas e, sexta-feira de lua cheia, tinha uma dança com uma intervenção de uma bruxa. Era justamente o caso e eu fiquei bem animada com essa possibilidade. Mas o amigo do argentino não quis ficar e os gringos foram embora as 22h porque o onibus para o Rio de Janeiro ia sair as 23h da rodoviária. O baiano quis pagar a conta, mas eu permaneci imóvel, já que eu tinha certo que ia esperar a Bruxa.
-Vc não vai pagar?
-Não. Mas pode ir com eles. Eu vou esperar a dança e tudo o mais. Mas não ligue de me deixar aqui sozinha (xinguei mentalmente o amigo de lá).
-Não. Achei que voce queria ir. Vou ficar. Débora, traga mais uma por favor!
Sim, nesse tempo ele já sabia o nome de todos os garçons.
E teve a bruxa, e teve a dança e teve muita afinidade de conversa. E teve risada, e encantamento. Culpa daquele bruxa que deixou seu feitiço no ar.
Voltamos pro hostel como amigos de infância e ele fez questão de falar isso várias vezes: "foi mto bom te encontrar!". Tinha sido mesmo. Foi demais!
Chegamos. Mais uma cerveja e ele abriu o mapa do lugar que eu ia visitar no dia seguinte, me explicou tudo. Eu derretia na mesa, pensando em como podia um cara tão parecido comigo ou tão parecido com meus anseios existir numa outra ponta do país.
E entramos no assunto de moradia.
-Você mora em Salvador com seus pais?
-Não.
-Com amigos?
-Não.
-Sozinho?
-Não.
-Em alojamento?
-Não.
-Não? Mora como então?
(não. Não tinha passado pela minha cabeça a resposta que vinha a seguir)
-Com minha namorada.
Endireitei. Derretida que estava na mesa, fiquei dura, sóbria. Claro! Como eu não tinha pensado que ele namorava!! Fui dormir 5 minutos depois, já que no dia seguinte eu tinha que acordar as 7h pra ir pro lugar que ele tinha explicado com tanto carinho.
Dormi sorrindo e, por aquelas horas todas, eu tinha esquecido que conhecia alguém naquela cidade. Eu queria mesmo era estar onde estava com quem estava e por longos dias a mais.
Viajei. E tudo o que ele falou, fez eu ter uma viagem certeira.
"Você tem que chegar nesse ponto perto do meio dia e meia, e ja almoça. Mas come um lanche pra ser mais rapido". Olhei no relógio, 13h! Quase perfeito. Mas eu tinha uma hora a mais que ele, então, estava tudo certo.
Fiz tudo e, impressionantemente, eu queria chegar logo no hostel pra contar pra esse desconhecido tudo sobre a minha viagem!! Pra esse desconhecido que tinha ganhado por inteiro meu coração e meu carinho.
Pois entrei no ônibus de volta e, meu celular vibrou. Mensagem. Do amigo que morava em BH? Não! De quem tinha que ser mesmo:
"Menina, prenderam você em Inhotim?"
Mas nisso, eu cheguei no hostel. Jogo do Brasil. Final de olimpiada. Tomei um banho correndo. Próximo programa era um festival de jazz que estava tendo na cidade e eu estava atrasando o grupo que tinha se reduzido ao argentino e ao baiano.
Sai do banho. Penaltis. Eu gostava tanto de assistir isso. Mas eu já estava atrasando todo mundo. Olhei para o meu mais novo amigo. Quer ir?
-Não. Vamos ver essa final. Vai lá no freezer, deixei uma cerveja pra você!
Cara de ué minha. Sempre tinha cerveja no freezer do hostel. Era o nosso bar.
-Não Hilde, deixei pra vc a ultima cerveja. Pq eu sabia que vc ia chegar querendo uma e era a última. Pega lá antes que alguém pegue.
Quase cai do sofá. Sim. Era verdade. Eu queria uma cerveja. Mas como sabia um cara que me conhecia há menos de 24 horas!
Fim do jogo. Brasil campeão. Vamos?
-Vamos. Vou lá na esquina pegar uma cerveja pra gente!
Festival de jazz. Foi demais. Tudo demais. Mas isso não era tudo. O festival acabou cedo e tínhamos que decidir pra onde irmos. O argentino ia encontrar outro amigo que, diferente de mim, teve todas as mensagens respondidas.
Sobramos eu e ele. E duas opções. Uma festa com as pessoas do jazz. Um bar de samba raíz que ele tinha lido num aplicativo.
-Ah! Eu adorei o jazz. Mas acho que esse samba raíz é uma boa né?!
-Então, mas esse samba ai ouvi falar que é meio underground - ele fez cara de medo do que eu ia falar.
-Legal neh?! Eu gosto.
-Mas parece que tem um pessoal meio alternativo.
-Nossa! Eu gosto mais! hahahahaha
Ele pulou num abraço! "Sabia que vc ia gostar". Sei lá como ele sabia isso, mas ele ficou realmente feliz.
Fomos pro bar. O bar estava quase abrindo ainda. Continuamos no táxi, vamos pro hostel e depois voltamos.
Vira uma esquina, vira a outra. E uma rua cheia de gente, musica, boteco.
-Moço. Para aqui. Para aqui. (frase dele).
Descemos. E eu não tinha falado uma palavra. Ele olhou pra mim e, naturalmente: -Aqui tem a nossa cara né?!
-Guilherme! Vc não me conhece! Como é nossa cara?
-Vc não está gostando da rua?
(silencio)
-Pra caralho!
-Eu sabia!
Risadas infinitas! Fomos atrás de cerveja. Boteco. Ele entrou e eu fiquei esperando na rua.
um mendigo chegou pra falar comigo e eu pensei: Aqui. Pode ser aqui que ele vai quebrar as minhas expectativas. e ser chato.
-Moça, posso te perguntar uma coisa?
-Pode!
-Eu tenho uma irmão professora, mas nunca consegui perguntar,
-Pode perguntar.
-O que é... ciências contábeis?
Expliquei. Mas quando ele chegou, joguei a bola.
-Olha. Ele é do direito. Sabe mais sobre isso.
Esperei a resposta dele.
15 minutos depois e o mendigo estava abraçado nele e falando que ele era muito legal! Nos despedimos. O mendigo abraçou nós dois:
-Vocês são um casal muito legal!
Desviei o assunto. Saimos bebendo rindo de outra coisa.
-Vamos ali, naquela porta.
Uma portinha com música brega tocando e um mundo de pessoas dançando.
Fomos. No meio do caminho, do nada, uma desconhecida:
-Vocês são irmãos?
-Não
-Namorados há muito tempo?
-Não mesmo.
-Como não????????????
(fala minha): - é que a gente é amigo há muito tempo. Ai acabamos pegando um o jeito do outro né?!
(Fala dele): -É! Muito tempo... tipo, 24 horas!!
-24 horas???????????
Ele: -Digo.. 24 anos!!
-Ahh! Isso explica mesmo! Bonito ver vocês! Sintonia pura!
Eu ignorei a menina. subi pro lugar de luz vermelha antes de agarra-lo.
Dançamos. Ele foi buscar cerveja e eu comecei a conversar com outro casal. Ele voltou rindo: - Toda vez vc vai fazer amigos novos?
Cinco minutos e o casal já gostava mais dele do que de mim.
Como podia um cara tão assim?
Voltamos pro bar do samba raiz. Não era samba.
-Performance. De um grupo da cidade. Vai ser lindo.
-Guilherme, amanhã vc tem prova as 10h. Quer mesmo entrar?
-Vamos! A gente bebe loucamente até a 1h e vai embora.
-Guilherme! São 0h38!!
-A gente bebe loucamente até as 2h e vai embora.
Fechou.
Bar underground. Politico. Vários adesivos sobre a mulher, a politica, o Temer.
-Você está gostando?
-Incrível! Incrível encontrar vc! Incrível! (frase dele)
Era mesmo! Tudo incrível. Conversamos mais uma hora. Como se nos conhecêssemos há milênios! O argentino encontrou a gente. Ficamos os três.
-Vou buscar uma água pra gente. É bom beber água pra hidratar. - Ele trouxe.
Forró começou. Ele me abraçou. Dançamos.
-Você me enganou né?!
-Eu?
-É. Uma pessoa das exatas não dança desse jeito.
-Pois é. Deve ter me restado um pé nas humanas.
Rimos. Mais uma vez.
Sai. Ele namorava. Não podia mais nada.
Vamos embora? O argentino ficou. Um amigo do argentino me chamou no canto.
-Oi?
-AMIGA! VOCÊ ARRASOOOOU!
-Eu? Pq?
-Primeiro que vc está linda né?!
-Obrigada. (tímida)
-E segundo que vc e esse seu namorado arrasam!!
Ri. Sai. Desesperada. Mais uma pessoa!
Voltamos pra roda. Ele me olhava como querendo saber que ele tinha falado.
-Não vou falar. Se fosse pra vc saber, ele tinha falado pra vc.
O argentino ficou.
Entramos no taxi.
-Estou meio chateada com meu amigo. Ele nem mandou nada!
-Jura que está?
-Estou né?! Meio mal educado.
-Manda essa pau no cu se fuder. Mas ainda bem que ele não mandou nada. Se não, não teríamos tido essa noite.
Era a mais pura verdade!
Ele: -Incrível ter te conhecido.
-Incrível.
Eu queria chorar. De alegria. De saber, que alguém, em algum lugar é tudo que eu procuro em alguém.
No hostel, mais uma. Mais conversa.
Um abraço de despedida. Uma vontade de beijá-lo loucamente.
Incrível.
Cada um para um quarto.
Até breve!