Entrei no onibus como um feriado qualquer. Vale ressaltar que não era esse ônibus que deveria ser meu destino, porque a passagem da outra empresa ja estava comprada. Demorou demais e a moça veio avisar que ia atrasar ainda mais por um problema mecânico perto de campinas. Dinheiro devolvido, era exatamente a hora do suburbano.
Entrei. Sentei. Dia normal.
Abri o livro para retomar a leitura que havia sido interrompida para troca de onibus não planejada.
O Irvin Yalom citava as palavras de Schopenhauer nas vozes das personagens da história. Presente de uma amiga que sabia que eu ia me envolver com ele.
De repente, a mulher falava alto: - eu sou moradora de rua! Não parece né?!? Mas eu sou!
E entre as palavras do livro e dela, foi inevitável o livro ficar em segundo plano.
Mais pessoas entraram na conversa daquela moradora de rua e uma senhora que perguntava o porque dela escolher essa vida.
-Por causa do meu marido. Que me batia. Ele era da Igreja sabe?! Mas me batia! Não aguentei mais e sai de casa. Tem dia que consigo uns lugares, mas hj mesmo eu durmi na rua.
Uma mulher se intrometeu, falando meio alto. Visivelmente alterada. Era aquela história: "João fala de Pedro, mas quando fala, fala mais de João do que de Pedro": - E por que você foi pra rua? Tanto lugar pra ir?
Uma pausa breve. -Eu tento uns albergues de vez em quando, mas não é sempre que dá não!
Sem pausa alguma.-Desculpa! Mas você não disse que era da Assembléia? Por que não foi lá procurar ajuda?
-Eu vou falar a verdade pra você... (se alterou ela, agora) Não teve um só irmão que me ajudou.
O livro estava aberto e entrava justamente no capítulo que falava de Deus e das coisas que a religião trazia de bom. Palavras do filósofo que eu tive que ler visto que era disso que as mulheres falavam.
Nesse intervalo, a senhora que iniciara a conversa estava falando calmamente sobre a oração que ela devia fazer: "tem que rezar pro Senhor, minha filha! Mas rezar falando que vc quer outra vida".
E a atenção perdeu-se de novo. Rezar pra pedir abrigo de uma pessoa que naquele frio de julho dormia na rua. Reza, minha filha.
A mulher falava com sua vizinha sobre aquela moradora de rua: -É falta de vontade isso ai! E virou, alterada ainda da primeira fala.
- E vc fica mudando de cidade? Arruma um emprego. Ta achando o que? Você ta pedindo pras pessoas erradas!
-Eu desisti. As pessoas sempre falam que eu moro na rua.
-Vai na assistencia social da cidade.
-Eu já fui. Ela mandou eu voltar pra minha cidade. Ela me ajudava com passagem! E eu lá quero voltar pra minha cidade? Eu não sou daqui mesmo, mas pra minha cidade eu não quero voltar.
-E você ainda não arrumou emprego?
-Pra falar verdade, a única coisa que apareceu foi uma mulher que falou pra eu cuidar da chácara dela em troca de comida e abrigo. Não ia me pagar nada. E como eu compro minhas coisas nénão? Não aceitei.
-Mas na dificuldade a gente aceita qualquer coisa.
Não consegui mais seguir a conversa. Quem se exaltara, agora, tinha sido eu. Isso é trabalho escravo, minha senhora! Não se aceita qualquer coisa quando se está na merda. Na verdade, na merda a gente é mais exigente, já que mais baixo não dá pra descer.
Pensei no discurso que falaria se eu tivesse culhões para tal. Não tive. E olhei pra janela em busca de algo. Passávamos pela cidade vizinha e duas freiras andavam pela quadra colorida da cidadezinha. Ironicamente, essa era a resposta.
Atenção pra dentro do onibus e a senhora falava: - To falando, minha filha. Reza pro Senhor, mas reza direito. Você desobedeceu a palavra do Senhor. Eu nunca vi um justo ficar desamparado.
A moradora de rua citou o vesículo da biblia e falou que havia algo errado ali, já que ela se intitulava justa.
"Mas nunca te faltou comida, menina! Nem lugar pra dormir".
Chegamos na rodoviária. E se a rua for lugar pra dormir, eu já não sei mais nada.
Frase falada em outro contexto muitas vezes, essa semana.
Eu não sei é nada.
Vale constar que isso aconteceu de verdade. Cada frase. Até as freiras da cidadezinha.
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