quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Mudo, falou tudo.

O quarto cheirava a sexo. A casa toda parecia ter um cheiro delator.
Ela entrou, devagar, sentindo cada parte daquele caminho até o quarto.
-Ela esteve aqui, não esteve?
-Não.
-Não minta pra mim. – Ela queria chorar. Respirou. – Vocês transaram ontem?
-Não transamos.
A cara dele mostrava que mentia. Ele não sabia que ela estudava expressão corporal há anos e tentou insistir naquela negação babaca. Assim o julgava por ele acreditar que passava despercebido.
Ela sabia que eles tinham transado. Sabia como ele tirou a roupa dela e como desabotoou seu sutiã. PORRA! Ele devia ter feito do mesmo jeito que tirou o dela. A calcinha devia ter ido pra debaixo da cama, já que eles deviam ter começado ainda em pé. Ele gostava disso e da emoção de caírem devagar na cama que ia ser palco na finalização do ato.
Porra! Com ela não! Não era traição porque eles não namoravam. Mas abrir o sutiã daquela mulher naquele quarto que já foi deles era uma ideia absurda demais pra ela. E aquele cheiro de sexo deu uma leve ânsia de vômito. Queria sair de lá, mas não podia porque queria comprovação. Queria escutar com todas as letras necessárias que, na noite anterior, o ato que ficou na cabeça dela por dias tinha finalmente acontecido. No fundo, ela queria que fosse tudo um grande delírio.
Olhou ao redor naquele apartamento minúsculo, como um detetive em busca de provas. Apesar do cheiro e do lugar se denunciar sozinho, ela queria algo mais. Sabia que não queria achar, mas procurava. Travesseiros, almofadas, cômoda, criado mudo. Duas taças descansavam, sujas ainda, no criado mudo. Que falava mais do que qualquer voz.
-Foi conhaque?
Ele olhou pra ela, com um leve espanto. Era. Filho da puta! Logo a nossa bebida. A bebida, no final das contas, era de qualquer uma que se deixasse tirar a blusa.
Ele não teve mais como negar. Conhaque, taças, sutiã, apartamento, aquela música do Ravier sei lá o que, que ele adorava. Nunca ela quis tanto não ter razão. Nunca desejou ser tão errada. Não era.
Ele tentou. Respirou. Ficou quieto.
Ela, em contrapartida, engoliu a lágrima e agradeceu a sinceridade, tirada a tapa. “Você quer me fuder, cara? É isso que você quer?”
Ele chorou. Ela saiu.

No outro dia, na sala do escritório, ela teria que fingir que estava tudo bem. Ela não sabia fazer isso. E não fez.

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